Por um céu com mais curvas
Posted by Unknown
Cento e cinco anos. Talvez por extenso se tenha uma ideia mais clara de quanto tempo cabe em 105 anos. Talvez não. Talvez seja possível prever quantos rabiscos saem de uma cabeça em tantos anos de vida. Talvez não. A verdade é que Oscar Niemeyer, o grande poeta das curvas, dos desenhos, da arquitetura, era um homem sem talvez. Com tiros certeiros, atingiu a modernidade desde a antiguidade e transformou o modo de se enxergar a vida. Um homem que provou que a arte - certamente - é pra poucos. Não para os poucos chatos acadêmicos parnasianos "cultos", mas para os que vivem na simplicidade e na complexidade de se pensar de forma diferente, de desejar chocar, de ser original. Eu, obviamente, no auge dos meus 19 anos - trancado no quarto escrevendo textos prum blog -, não sei o que seria uma vida sem alguém tão criativo e misterioso quanto Oscar - pros íntimos. Com muita certeza, conhecendo os trabalhos do gênio, não acharia graça num mundo sem o Palácio da Alvorada ou o do Planalto - JK me perdoe, mas os meus créditos da lindeza brasiliana nunca irão para ele. Niemeyer era único, e ponto. Se em tantos anos de vida do velho não se encontrou alguém sequer parecido, como depois de sua ida será possível achar? Nunca. Talvez com outras curvas, e atalhos, alguém alcance novas perspectivas e contemporaneidades, mas o modernismo niemeyeriano se foi com ele. Ou será que o artista continua sempre vivo com suas obras?
Não acredito que tantos anos de vida não deixem lições. Espremendo ao máximo, depois de tantas novas plantas e projetos inacabados, escorrem alguns aprendizados da vida de alguém tão especial: que sua vontade de ser ímpar seja um disparo para a originalidade em cada um de nós. Muitos anos depois de uma semana de 1922 cheia de novos caminhos para a arte, o mundo se acostumou com os 15 minutos de fama de Andy Warhol e perdeu a vontade de ficar para a História, mas alguém que esteve presente trouxe esse sentimento de perenidade para todos nós, o que o fez, ainda que não em carne e osso, viver mais de 105 anos. Que a vontade de viver - e seus cento e cinco (novamente em extenso, pra que fique mais fácil enxergar sua extensão) anos provam isso - volte a fazer parte de nós. Não apenas pelos avanços da Medicina e da Genética, mas pela alegria de aproveitarmos ao máximo aquilo que nos é oferecido - a vida - e pelo prazer de, como o próprio Oscar, ainda que nos últimos momentos de vida, pedirmos pastéis e café na cama, simplesmente porque nos fazem mais felizes. "Mas Niemeyer era rico!", você dirá. E eu entendo. Me pergunto até agora, com muita certeza - e medo - da resposta, se isso foi um dos fatores que o fizeram feliz, mas não acredito que tenha sido o principal, o crucial. Em grande parte das entrevistas que assisti, o artista sempre se encontrava com um lápis, ou uma caneta, na mão. Talvez seja esse o principal fator: o anseio por desenhar a vida à sua forma, ao seu olhar. E por que não adotarmos tal sentido em nossas vidas? Talvez consigamos viver os 105 anos. Talvez vivamos apenas 30 mas, assim como aconteceu com Oscar Niemeyer - nóeis, tons e cartolas comprovam -, o tempo de vida será pouco importante quando o que realmente somos for eterno. "Que seja infinito enquanto dure" pode até se encaixar no amor, mas na vida de alguém como Niemeyer, me perdoe Vinícius, o que tiver de ser infinito o será para sempre, imortal. O céu ganhou um novo arquiteto, e garanto que o que meus bisavós encontraram por lá vai estar bem diferente quando eu chegar. Oscar não merece um minuto de silêncio, mas cento e cinco anos de aplausos.
Ou até mais.

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